Review do Fosi GR70 - Um amp estranho, mas com aplicações interessantes
- Moreno Addad Hassem

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- 11 min de leitura
Fala galera! Vamos ao primeiro review de amp valvulado da mahaudio, o Fosi GR70. É um produto muito interessante, mas que tem aplicações específicas. Será que é para o seu setup? Vamos conferir!

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Apresentação - O Fosi GR70
A Fosi é um fabricante de produtos de áudio que faz de dongles USB a alto falantes, passando por DACs gamer e amplificadores valvulados. O GR70 é um exemplo desta última categoria, que vem crescendo - já que o mercado de áudio está bastante saturado e os fabricantes buscam alternativas para se diferenciar e atrair o consumidor.
O GR70 é apresentado pela Fosi como um amplificador valvulado de mesa acessível, tanto no preço quanto nos controles e conexões. A idéia é oferecer os benefícios do som valvulado, mas em um produto com design moderno e de simples operação.
O amplificador é apresentado como um produto dois em um, capaz de funcionar como amplificador de fones de ouvido ou preamplificador em conjunto com um outro amplificador. Desse jeito fica mais fácil encaixar um valvulado no setup - se ele fizer bem as funções a que se propõe.
Unboxing e acessórios
O unboxing do GR70 é básico, mas eficaz. No pacote encontramos o próprio amplificador, uma fonte de 12V / 3A, dois pares de válvulas - das quais falaremos logo mais - e proteções em vidro para as valvulas menores - que aparentam ser mais frágeis.
Pensando no conjunto mínimo para o consumidor, senti falta de um cabo P2 ou P10 para RCA, o que permitiria já ligar alguma coisa na entrada de sinal do GR70. Mais cabos e uma bolsinha para eles seria muito legal - mas temos de lembrar que a proposta aqui é facilitar o acesso por meio da redução de custos. Então no orçamento do GR70 não cabiam mimos.
Construção, conexões e controles
Construção física
O GR70 é muito bem construído em alumínio usinado por CNC e anodizado na cor preta - a figura abaixo é sem o acabamento final. O produto tem um design que vai na linha do moderno, o que ajuda a trazer a amplificação valvulada para a lingugagem de design atual.

O design do GR70 é bem sóbrio e ele se encaixa bem em um setup, mesmo tendo um pouco mais de altura por conta das válvulas. Eu particularmente adoraria uma versão prateada, mas não ficou tão fora por aqui. Na foto está como amplificação do K11 R2R - um caso que não vale muito apena, já que o GR70 tem bem menos potência.

Eu só gostaria, para o meu setup, que houvesse uma opção prateada. Acho que ficaria bem legal!
Conexões
Falando agora sobre as conexões e interfaces do GR70, no painel superior temos o knob de volume - que também atua como chave liga/desliga - bem como os soquetes para os dois pares de valvulas.

No painel traseiro temos a entrada de energia para a fonte DC, uma saída de sinal RCA - para quando o GR70 funciona como pré-amplificador - e uma entrada de sinal RCA, a única disponível no aparelho.

No painel dianteiro há duas saídas para fones - ambas single-ended - uma de 6.35mm (P10) e uma de 3.5mm (P2) para fones de ouvido. Também há dois knobs para equalização.

Note que o Fosi GR70 é um amplificador totalmente single-ended, portanto não existem quaisquer entradas ou saídas diferenciais no produto. Esta é mais uma dica de que a Fosi provavelmente pensou neste amp como um pré-amplificador primeiro e acabou colocando as saídas de fone para aumentar a penetração dele no mercado.
Valvulado Tradicional vs OTL
O GR70 é equipado com um par de válvulas 6564W e outro par de válvulas 6Ж4 - também conhecida no ocidente como 6AC7 ou 6Ж8 - que também é conhecida como 6SJ7. A Fosi não detalha como estas valvulas estão arranjadas, nem a classe do amplificador. Mas há um par de cada valvula e este é um amp single-ended, o mais provável é que seja um configuração Classe AB.
Antes de seguirmos analisando o GR70, é importante discutir a diferença entre um amplificador valvulado tradicional e um OTL (Output Transformer-Less). Um amplificador hi-fi valvulado “tradicional” usa transformadores de saída para casar a alta impedância das válvulas com a baixa impedância dos fones/caixas, o que garante versatilidade e melhor controle de carga; já o OTL (Output Transformer-Less) dispensa esses transformadores, o que simplifica o projeto, porém com limitações: ele costuma se dar melhor com fones de alta impedância, tem menor capacidade de corrente e pode apresentar maior impedância de saída, o que influencia a resposta em frequência dependendo do fone conectado.
A Fosi não menciona se o GR70 é OTL - normalmente os valvulados tradicionais usam grandes transformadores para energia e saída, normalmente visíveis por fora da case do amplificador. Por exemplo, o HiFi do Pedrone é um caso de amplificador valvulado clássico - no caso para falantes e não para fones.

Como não há transformador visível no GR70, poderíamos imaginar que se trata de um OTL. No entanto, é possível ver uma foto da placa do amp nesse post do ASR. Também há oportunidade de ver um teardown rápido neste canal do YouTube. No entanto o vídeo está em coreano.

Duas coisas chamam a atenção na figura de cima. Primeiramente os leds SMD posicionados nos soquetes das duas valvulas 5654W, o que mostra que não há tensão alta para as válvulas. Este recurso é muito utilizado por fabricantes de produto de baixo custo para dar uma idéia ao usuário de que as válvulas estão ligadas. No entanto, as válvulas só ligam (acendem), quando há tensão suficiente para isto. Em valvulados de baixa tensão usa-se uma tensão mais baixa, o que normalmente coloca a válvula numa região de trabalho não linear - o que normalmente é feito para reduzir tamanho e custo.
Outra coisa que chama a atenção são os transformadores próximos aos potenciômetros na parte inferior esquerda da figura. É possível ver algumas trilhas saindo da região desses transformadores e indo até os relês - que clicam quando o amplificador liga. Provavelmente estes são transformadores de saída - o que coloca o GR70 como um amplificador valvulado tradicional, mas usando válvulas que tecnicamente estão desligadas. Este tipo de design é chamado de starved tube ou starved plate - plate é o terminal da valvula no qual a alta tensão é conectado.
Normalmente em designs desse tipo, temos um estagio transistorizado de potência na saída, mas na foto do há apenas um par de CIs, que provavelmente implementam o equalizador - na parte de baixo - e algum condicionamento de sinal - na parte de cima. Não há grande preocupação com a potência de saída.
Dada esta análise rápida, minhas expectativas são de um amp sem muita potência e sem o som valvulado real, mas com alguma coloração, típica dos designs com essa topologia. Vamos ver mais a frente nas medições se isto se confirma.
Especificações e recursos
Ao contrário de outros fabricantes, como FiiO e Topping, a Fosi não prove especificações super detalhadas dos seus produtos. Dando uma boa olhada no site da Fosi, conseguimos pescar algumas specs:
Spec | 3.5mm e 6.35mm |
Potência de Saída | Rated Power Output: 90mW@32Ω; Max Power Output: 300mW@32Ω |
THD+N | Não informado |
Ruído | Não informado |
SNR | 97dB |
Crosstalk | Não informado |
Impedância de saída | Não informado |
Achei muito estranho que existem duas potências em 32 ohms. Normalmente os fabricantes não divulgam dois valores - divulga-se um único valor, acompanhado da distorção gerada ao atingir aquela potência de saída. Vamos mantes os dois valores em mente ao avaliar as medidas.
Os principais recursos são:
Dois modos de impedância - High e Low;
Low Mode: 16Ω-120Ω;
High Mode: 120Ω-300Ω;
Controle de grave e agudo por meio de knobs no painel frontal;
O produto é simples e com poucos recursos, compatível com sua proposta acessível e de custo relativaente mais baixo. Gostei que os controles de grave e agudo possuem knobs que tem posições centrais definidas, portanto é fácil para o usuário voltar a uma posição neutra.
Medidas
Vamos agora para as medidas, entender o que o GR70 coloca no nosso som de forma objetiva - o que já deve dar algumas pistas do que esperar na audição. Primeiramente vamos dar uma olhada na potência por impedância.

O modo LoZ - de baixa impedância - tem uma curva absolutamente normal para um produto de fones de ouvido. A saída HiZ tem um comportamente bizarro, com um comportamento linear em relação a impedância - bem diferente do que vimos em outros produtos. Provavelmente ela representa a faixa inicial que vemos nas fontes até cerca de 32 ohms - que de fato é linear. No geral, as potências medidas são bastante baixas e nem perto dos números divulgado pela Fosi. Um resultado bastante decepcionante.
Potências Divulgadas | Potência Medida - LoZ | Potência Medida - HiZ |
Rated Power Output: 90mW@32Ω; Max Power Output: 300mW@32Ω | 25.5mW @ 33Ω | 3.6mW @ 330Ω |
Antes que você me pergunte - sim, verifiquei estes números muitas vezes e fiz outros testes com fones plugados ao invês do Pinguelômetro. A minha unidade do GR70 de fato produziu estes números.
Vamos agora à distorção harmônica. O GR70 é um amplificador, então precisamos de algum DAC na entrada para gerar os tons de teste. Tentei utilizar o FiiO M11S, que tem o ótimo ES9038Q2M, mas alguma coisa do DAP acabava gerando componentes em 60Hz e suas harmônicas que eu não gostaria que contaminassem o resultado final. Por isto, usei o FiiO Snowsky Melody, que também tem um ótimo DAC. Abaixo a resposta de referência do DAC, sem amplificação.

Uma resposta bastante limpa. Agora vejamos o que acontece quando passamos pelo GR70. Neste teste utilizamos a saída de alta impedância e uma carga de 330 ohms no Pinguelômetro, simulando um fone como o HD800. Colocamos o volume em um patamar razoavel no qual não havia distorção extra por conta do volume aplicasdo. Em suma, configuramos o sistema em uma "posição confortável" para a audição.

O primeiro fator que me salta aos olhos é a resposta aumentada de graves. São cerca de 20dB a mais em sub-graves, com um decaimento natural até a região dos médios. Isto certamente deve causar um impacto na sonoridade do amplificador. Em segundo, temos uma evidente adição de segunda e terceira harmonicas, visíveis em 2kHz e 3kHz, provavelmente vindas das válvulas. No entanto, essas harmonicas estão mais de 70dB abaixo da fundamental. Na minha opinião, em volume confortável não é suficiente para trazer o "som valvulado" para seus ouvidos. No fim, para THD temos:
THD Referência (Snowsky Melody) | THD GR70 |
0.0013% | 0.040% |
Como a Fosi não declarou valores de intermodulação e cross-talk, não acho que há sentido em explorar estes valores. Gostaria de me concentrar na resposta do equalizador, acionado pelos knobs frontais. Vamos extrair diversas respostas em frequencia para ver como este equalizador funciona. Primeiramente as respostas com os dois equalizadores na posição média - para os modos Low e High Impedance.

Note que a resposta é majoritariamente plana em ambos os modos, com o modo de baixa impedância - curva roxa, um pouco mais plano. Há uma leve queda no modo de alta impedância para freqencias acima de 5kHz. Fiquei surpreso de não ter visto o boost de graves que vimos na resposta espectral da THD.
Vamos agora ver como essas respostas variam movendo-se os knobs, primeiramente para o modo baixa impedância.

Na figura anterior, a curva do meio é a resposta padrão e as variações acima e abaixo são os resultados girando-se os controles para mais ou para menos. Quando um controle é girado para menos, o valor a resposta decresce e - contrariamente - quando um controle é aumentado temos um aumento em dB da resposta. Vamos ver as curvas do modo de alta impedância, que são similares.

O que podemos ver pelos resultados é que o filtro de graves funciona como um bom controle para subs e graves, enquanto o controle de agudos tem um efeito em mais regiões, sabidamente médio-agudos e agudos. Isto pode gerar impacto significativo para regiões de áudio que fones over normalmente necessitam - tipo um bump de 2kHz que eu costumo dar no HD650 (ou no Thieaudio Ghost). Veremos o impacto disto na minha audição na seção de experiência pessoal.
No geral estou decepcionado com a potência e um pouco surpreso de não ver o boost de graves que vi na medida da THD refletida na resposta em frequencia base que medimos. Olhando apenas os parâmetros, fica difícil respeitar o GR70.
Experiência pessoal
Vamos à minha experiência com o GR70, onde falo sobre como foi viver com ele por quase 2 meses testando todos os dias, com diferentes equipamentos e situações. Primeiramente vamos às fontes utilizadas:
FiiO M11S, atuando como um pré para apimentar o ES9038Q2M enquanrto uso o DAP sobre a mesa;
FiiO Snowsky Melody, para melhorar a experiência musical no PC;
Os fones utilizados foram:
Sennheiser HD700 e HD800;
Hifiman HE400SE;
Truthear Hola;
Moondrop LAN;
TinHifi T2;
Unique Melody Mest Mk II;
Ouvi outros fones com o GR70, mas estes acima foram os que mais frequentemente utilizei, pois me deixam ter uma idéia como a resposta sonora afeta diferentes modalidades, faixas de preço, construçõe e respostas. Minha playlist do Spotify é conhecida de vocês:
Em termos de potência, não é surpresa que não rolou o HE400SE em sua plenitude, pois o GR70 não tem potência pra tocar. No entanto, se você usar o GR70 como pré para um outro amplificador mais parrudo, isso não deve ser um problema.
Quanto ao som, de imediato notei mais corpo no som dos Sennheires HD e do Mest Mk. 2, o que é muito bem vindo dada a resposta mais focada em médios agudos desses fones. O equalizador foi MUITO eficaz para me ajudar a ajustar a resposta do fone e extrair sempre o melhor som - o que foi uma grata surpresa. Eu diria que o equalizador é uma peça chave deste amp que eu gostaria de ver em mais produtos, pois matou minha necessidade de DSP em qualquer cenário de uso. Na minha experiência, sempre fiquei perto das posições intermediárias do equalizador, compensando ligeiramente para mais e para menos nos controles conforme mudava o estilo de música. Muito legal!
Nos dois IEMs baratos, uma surpresa desagradável - que já havia sido sinalizada pra mim pelo Digão Reviews - uma interferência bastante audível, algo como um ruído chaveado. Estranhamente não ocorreu no Mest, provavelmente por algum componente do fone que atenuou. Após diversos testes com nossos maravilhosos inscritos e apoiadores, descobrimos que se trata de interferência eletromagnética - vinda de Wi-Fi, Bluetooth e telefones celulares - acoplando-se ao áudio pelas válvulas 5654W, que estão desprotegidas - sem blindagem. Para reduzir, tem de usar folha de cobre e blindar totalmente essas aberturas, o que vai deixar o amp com um visual bem esquisito - e talvez não elimine 100% dos ruídos.
Quanto ao som com os IEMs baratos, o Truthear Hola ganhou muito corpo, acabou afetando a qualidade das frequencias graves, que pra mim ficaram emboladas. O equalizador resolveu esse problema, mas ai o amp não adicionou nenhum tempero, apenas problemas. No LAN, como é um fone que tem os graves mais recuados, o GR70 adicionou uma sonoridade complementar, mas que teve novamente de ser dosada com o amplificador.
Eu tinha grandes esperanças que o GR70 fosse um bom par para o TinHifi T2, mas infelizmente foi o fone que captou a maior interferência e gerou um resultado sonoro pouco surpreedente. Diria que os graves adicionados pelo GR70 chegaram até a embolar o som. Considerando minha experiência, eu não recomendaria o GR70 para IEMs de forma geral. Fiquei curioso para saber se a conexão balanceada talvez melhorasse a presença desta interferência, mas não apostaria meu dinheiro nisto.
Na minha opinião, não houve - em qualquer dos casos - algum som ou caracteristica especial do som que pude atribuir ao uso das válvulas. Apenas uma resposta em frequencia que não é necessariamente neutra e que foi compensada com o uso do equalizador quando necessário. Muito diferente de outros amps, como o Cayin C9, no qual claramente é possível ouvir influência no som no modo valvulado. Aqui a impressão é que é um amp sabor valvulado, sem o molho das válvulas de fato.
Conclusão
Antes de dizer se recomendo o GR70, acho uma boa definir o que gostei e o que poderia melhorar.
Gostei:
Construção sólida, sóbria e de boa qualidade;
Experiência com fones over, especialmente o HD800;
O equalizador frontal, excelente para ajustar o som;
Pode melhorar:
Potência muito abaixo do divulgado;
Interferência e experiência geral com IEMs;
Kit espartano, sem incluir ao menos um cabo RCA para entradas;
Falta de som que caracterize este amp como um valvulado;
Frente aos pontos, eu não consigo racionalmente recomendar o GR70 como um produto que você compre e tenha retorno tangível. No entanto, ele tem uma característica sonora interessante, que na minha opinião não vem necessariamente das válvulas. O equalizador um um efeito interessante e permite uma boa aplicação em fones over. Minha recomendação é que você busque seu som valvulado em outro modelo - a menos que ja tenha ouvido um GR70 e saiba o que está fazendo!
É isto ai pessoal! Até o próximo review!

Interessantissimo, a atenção em destacar todos os detalhes, deixou o artigo muito bom , mesmo em um equipamento estranho como esse.
Mais um trabalho de excelência do Moreno